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22 março, 2010

Trilha Certa - Fundição Progresso


Sexta o Franz Ferdinand agitou a Fundição Progresso, uma casa de show que vai muito além de um palco. A arquitetura antiga, esconde uma dinâmica moderna e as vezes precária. Ano passado a Fundição passou um mês fechada, devido a um incêndio.

Porém, isso não vem ao caso, pois a energia que rola na Fundição é sensacional! O melhor show que assisti na minha vida foi lá. Era o último da turnê acústico MTV, e o Lenine estava numa forma extraordinária. Quase 3 horas de espetáculo e depois ainda tinha uma outra banda, Bagalafumenga, que pelo adiantado da hora nem fiquei para assistir.

O calor pode ser uma herança da fundição de fogões e cofres que havia ali. A construção grande e imponente estava para ser demolida, mas o Circo Voador fazia tanto sucesso logo ao lado, que conseguiram barrar a destruição para construir um centro cultural no prédio. Em 1987, a Fundição passou a ser uma extensão do Circo Voador e ambos os espaços culturais funcionavam ao mesmo tempo, um complementando o outro.

A ideia era juntar várias manifestações artísticas num mesmo lugar. No começo o processo foi confuso e alguns artistas acusaram a administração daquela época de calotes. Em 1999, o produtor Perfeito Fortuna, que também criou o Circo Voador, tomou as rédeas do negócio e reergueu a Fundição Progresso. A partir daí começou agitar o movimento cultural do Rio de Janeiro.

Intrépida Trupe, Armazém Cia de Teatro, Teatro de Anônimo, Filmes do Serro, Vídeo Fundição, entre outros movimentos tem sede nesse centro. Na sala maior, onde acontecem os shows, cabem cinco mil pessoas. Lenine, Nando Reis, Caetano Veloso, Jor Ben Jor, Luiz Melodia e muitos outros grandes nomes da música brasileira passaram pelo palco da Fundição.

No entanto, o que diferencia essa casa de show das outras é o apoio a cultura nacional. Nada melhor para representar a maior festa popular do Brasil, o Carnaval, que a marchinha. Desde 2005, a Fundição organiza um Concurso Anual de Marchinhas. A disputa ajudou a revitalizar o carnaval de rua do Rio. Por lá há o Núcleo de Educação e Cultura Fundição de Paz e Progresso, que oferece aulas gratuitas de teatro, dança, filosofia, percussão, acrobacia, cenografia e grafite a estudantes de escolas públicas.

Veja o Perfeito Fortuna contando a história da Fundição Progresso:


Chegar lá é simples, a Lapa fica próxima a Cinelândia e ao Passeio Público. Mas estacionar o carro é ruim.

De ônibus, se você vem da Zona Norte pode pegar o 433 ou 434, que passam em frente ao Circo Voador, que é do lado da Fundição. De táxi, até o maracanã dá, no máximo, R$ 15. Ainda há o metrô, que circula até meia-noite.

Para Zona Sul, o 433 e o 434 vão para o Leblon e passam pela Av. Nossa Senhora de Copacabana e pela Lagoa. O 409 passa pelo Jardim Botânico e Humaitá. No aterro e na Cinelândia há mais opções de ônibus, embora nem sempre seja seguro ficar esperando condução naquela praça. Até o Leblon, uma corrida fica por menos de R$ 25.

Quem mora do outro lado da poça e não tem carro, não desista! Há vans e ônibus, que saem de Icaraí e passam pelo centro, que te deixam na Lapa. Se for de barcas, vai andar um pouco, de 20 a 30 minutos. Na volta, não há mais barcas nem ônibus. O jeito barato é pegar um táxi até o ponto final do 100, o motorista vai te cobrar R$ 7, nunca mais que isso. Ou então vá direto, negocie com o taxista. Por R$ 40 reais ele te leva até Icaraí, na porta de casa.

20 março, 2010

Trilha Especial – Franz Ferdinand no Rio (19 de Março de 2010)

Por Luiza Barros


Todos os shows de rock são iguais. Tudo começa com algum rumor na internet de que “sim, eles devem vir”, “eles vêm mesmo”, “no ano que vem”, “no próximo verão”, “em meados de março," "no dia 19”. Então, depois que as fontes oficiais confirmam, nós corremos para os sites de venda de ingresso que insistem em ficar fora do ar, pagamos caro (porque mesmo que você pague meia, você ainda paga caro), marcamos a data na agenda, no calendário, e, sobretudo, da memória, e esperamos.

Então depois de alguns meses, chega o dia, e você modifica toda a sua rotina por causa disso. Pede pro chefe pra sair mais cedo, fala que cobre as horas depois, mata aula, pega trânsito, paga caro pelo táxi superfaturado. Depois, mais espera: na fila, por horas indeterminadas, e já dentro da casa de espetáculos, em pé, com sede (porque você não vai sair do seu lugar conquistado com muito esforço para comprar água), apertado por todos os outros fãs que parecem desconhecer a regra básica da física de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, ao mesmo tempo.

O primeiro consolo vem com a banda de abertura. Um sinal de que logo tudo vai começar. Deve ser chato tocar para pessoas que estão esperando outros, você pensa. E quando se dá conta, eles já foram embora. O ciclo da espera se reinicia, é hora de assistir os roadies acertando um microfone ali, afinando uma guitarra lá. Muito mais tempo? As pessoas estão mais próximas ainda, e você já está todo suado, cansado e irritado com a tiete imbecil na sua frente que não pára quieta. Mas algo na iluminação muda, e quem você tanto esperava entra. São mais pulos, cotoveladas e pisadas de pé, e o oxigênio parece nunca realmente ter existido para além das tabelas periódicas. E vale a pena?

“Fazer valer a pena” fica por conta da banda. Quando esta é o Franz Ferdinand, eu posso afirmar agora com absoluta convicção que eles fazem valer sim. Os escoceses ralam tanto no palco quanto você para poder assisti-los melhor. No calor quase sólido da Fundição Progresso, você pode olhar para o vocalista Alex Kapranos e o rosto dele terá tantas gotas de suor quanto o seu. E ele está feliz. É aniversário dele, e ele está tendo uma festa no Rio de Janeiro, com várias garotas gritando o seu nome. O que mais um gringo poderia querer da vida?


Então segue uma seqüência arrasadora de hits, todos aqueles que você por quase seis anos ouviu no seu iPod, agora materializados, mais potentes, mas também menos sutis – eles tocam muito rápido. E depois de vibrar com “Dark Of The Matinée”, “Do You Want To”, “Michael”, “No You Girls”, “Bite Hard” e “The Fallen”, pode-se querer mais alguma coisa? Pode sim, porque você como bom fã do Franz sabe que o melhor do show ainda não chegou. Mas não tarda: começa “Outsiders”. Uma nova bateria é montada bem na sua frente, e os quatro integrantes da banda começam a tocá-la juntos, sabe-se lá por quanto tempo. Esse é o ápice, e você tem a certeza de que nada pode ser melhor do que isso. Mesmo assim, seria um crime não conferir o restante: ainda há muito mais. Kapranos reitera de que aquele é o Rio, aquela é uma festa e está muito quente mesmo cantando “this fire is out of control/I’m going to burn this city”, o serelepe guitarrista Nick McCarthy escala a estrutura de metal do palco e... chega a hora da lisérgica “Lucid Dreams”, um final muito digno para o espetáculo.

Os quatro se despedem, apenas para voltarem num segundo. Kapranos sacou uma garrafa do backstage para nos refrescar. E ele e seu comparsa McCarthy fazem aquele adorável clichê do rock: se jogam nos braços (e pernas, e cabeças, e barrigas) do público.

E então, quando eles voltam?

Fotos de Mônica Imbuzeiro - O Globo