17 abril, 2010

Trilha do Artista - Radiohead

Por Luiza Barros


Uma nova década acabou de começar. Daqui pra frente, tudo o que aparecer de novo vai definir como esses dez anos vão ficar marcados no nosso imaginário coletivo. As roupas que os estilistas vão apresentar nas semanas de moda, as inovações tecnológicas que vão surgir, os filmes que veremos nos cinemas, os próximos vencedores da Copa do Mundo. A ascensão de novos líderes mundiais e as inevitáveis tragédias. E claro, as músicas que vamos ouvir. Muitos artistas vão aparecer ainda, sejam vindos do interior de Minas ou da Islândia (parentes da Björk?). Mas neste exato momento, antes de tudo o que está por vir, quem será que está no topo?

A minha resposta pessoal é o Radiohead. Consagrados pela crítica, adorados por milhões, a banda surgida em um longínquo 1988 consegue embasbacar a todos a cada lançamento. Vinte e dois anos após seu nascimento, o Radiohead nunca deixou de ser atual. Talvez, pela excelência de seu trabalho, que como o de titãs como Pink Floyd e Beatles, supera as barreiras do tempo.

O Radiohead surgiu na atmosfera universitária de Oxford. A formação original se mantêm até hoje, com Thom Yorke (vocais, guitarra e piano); Jonny Greenwood (guitarra principal, teclados, e qualquer outro tipo de instrumento que você pensar); Ed O’Brien (guitarra, vocais de apoio); Colin Greenwood (baixo, sintetizadores), irmão mais novo de Jonny; e Phil Selway (guitarra e percursão). Os rapazes se conheceram ainda na escola e formaram a banda On a Friday, alusão ao único dia em que todos podiam se reunir para ensaiar. Após um hiato de dois anos, a banda voltou com força em 1991, quando todos (menos Jonny) já haviam terminado a faculdade. As gravadoras logo se interessaram, e a EMI acabou ganhando os garotos. Com as coisas ficando sérias, resolveram procurar um nome melhor. Escolheram Radiohead, em alusão a uma música dos Talking Heads.

A banda estourou logo, com o hit “Creep”, do disco de estréia Pablo Honey. A música dizia basicamente tudo o que uma multidão de jovens sem rumo no começo dos anos 90 queria dizer mas não sabia como. Mesmo assim, a banda não ficou satisfeita com o resultado final da faixa. O carma com "Creep" só foi superado recentemente, quando a banda passou a aceitar tocá-la em shows.

Em 1995 veio The Bends. O Radiohead havia passado no teste do segundo álbum com êxito. Um disco maduro, repleto de canções de uma beleza angustiantes. Aqui estão velhas favoritas como “High and Dry” e “Fake Plastic Trees”. Bends fez a crítica associar a banda com o movimento Britpop, dos compatriotas Oasis, Blur e Pulp. A diferenciação com o que estava sendo feito pelos outros veio no trabalho seguinte, o lendário OK Computer, de 1997. Considerado até hoje por muitos a obra-prima do “Cabeça de rádio”, o disco fez a crítica dobrar os joelhos. Apesar negar o rótulo de “álbum conceitual”, todas as faixas parecem remeter a uma mesma sensação de asfixia. O clipe de “No Surprises”, logo abaixo, prova o que eu digo. Qual a melhor música? Sem dúvida a mais marcante é “Paranoid Android”, uma saga de mais de seis minutos que prova que Thom Yorke e seus amigos não estavam mais no mesmo mundo que nós. O nome é uma alusão ao andróide Marvin, da série O guia dos mochileiros das galáxias. Como se pode ver, o Radiohead sempre soube agradar aos nerds.


Radiohead - No Surprises

OK Computer não foi o auge, mas apenas o começo de uma nova era. A partir daí, a banda mergulhou fundo na experimentação. O primeiro resultado dessa viagem foi Kid A, lançado em 2000. Enquanto fãs que se identificavam com o rock mais palatável de The Bends se decepcionaram com as excentricidades de Kid A, muita gente do meio da música morreu de inveja da ousadia do Radiohead. “Como se atrevem, p...! Eles não são o Velvet Underground! Quem esses p... pensam que são?”, soltou a vocalista do Garbage, Shirley Manson. A estressada Shirley deve estar nesse momento mais tranqüila, descansando em paz no limbo das celebridades que cairam no ostracismo. Que Deus a tenha.

Outro incômodo de Kid A (desta vez, para o bolso da própria banda) foi ele ter vazado meses antes no falecido Napster. Apesar do choque na época, a banda mostrou depois saber encarar as mudanças na comercialização da música: o último álbum, In Rainbows, foi disponibilizado no próprio site oficial do Radiohead, numa campanha inovadora. Cabia ao fã decidir quantas libras o trabalho do grupo valia.

Um ano depois, foi a vez de Amnnesiac chegar às prateleiras e filas de download. O disco é uma espécie de irmão bastardo de Kid A, já que suas músicas foram feitas nas mesmas sessões do que o anterior. Apesar das misturas com o eletrônico, as guitarras em Amnesiac soam mais altas. No entanto, o retorno definitivo ao instrumento só veio com Hail to the thief, de 2003. Parecia que, depois de um longo exílio intergaláctico, a banda havia pisado de novo na Terra. E não parecia estar muito satisfeita com o que via. O título (que significa algo como “Viva o ladrão”)” é um trocadilho com a marcha “Hail to the Chief” (“Viva o Chefe”), usada para anunciar a entrada do presidente dos EUA. Embora a piada tenha sido criada nas eleições americanas de 1888, ela também foi utilizada em protestos contra a controversa eleição de George W. Bush em 2000. Vale lembrar, 2003 é o ano em que foi iniciada a Guerra no Iraque. Leitor de Naomi Klein e Noam Chomsky, Thom Yorke firmava suas posições políticas, mas sem descambar para a obviedade e o oportunismo típicos de alguns de seus colegas de profissão.

Entre o lançamento de Hail to the thief e In Rainbows, os integrantes da banda aproveitaram para se dedicar a projetos pessoais. Em 2006, Yorke lançou um disco solo, The Eraser. Jonny Greenwood assinou as trilhas sonoras dos filmes Bodysong, de Simon Pummel, e Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson. Esta última, um trabalho soberbo, com o qual ganhou o Critics’ Choice Awards. No momento, Greenwood trabalha na trilha de Norwergian Wood, filme baseado no romance de Haruki Murakami. E ainda aproveitaram para visitar o Brasil pela primeira vez, no festival Just a Fest. A banda se apresentou no Rio e em São Paulo em março do ano passado. Eu perdi a festa, mas das pessoas que foram, não vi uma até agora usando qualquer adjetivo abaixo de “inesquecível”. Depois da boa recepção de In Rainbows, basta saber o que o Radiohead nos promete nessa década por vir.

Pesquisa: Green Plastic , Beijar o Céu, de Simon Reynolds, 1001 discos para ouvir antes de morrer, org. Robert Dimery.

Um comentário:

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