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28 abril, 2011

O primeiro fã-clube do Brasil: Sinatra-Farney

Por Mariana Coutinho

Por volta de 1948, o radialista Luís Serrano desembarcou na Praça Mauá vindo de Nova York.  Da terra do tio Sam, ele trouxe a ideia de um programa de rádio, que passou a apresentar na Rádio Globo - o Disc-Jockey. A modernidade da vez era exatamente o que parece, o DJ tocaria discos na rádio. Hoje isso pode parecer uma coisa banal, mas na época quase toda a música que se ouvia no rádio era ao vivo. Além de apresentar as gravações mais recentes, Serrano ainda falava dos artistas e buscava um intercâmbio com os fãs. 

Como acontecia nos Estados Unidos, esse intercâmbio ficava muito mais fácil se os fãs se reunissem de alguma forma. Por esse motivo, o radialista começou a divulgar os fã-clubes em seu programa e a tocar discos estrangeiros, principalmente os da Capitol.

No bairro da Tijuca, três meninas pegaram no ar as ideias sobre fã-clubes que Serrano transmitia pelas ondas do rádio. As primas Joca, Didi e Tereza Queiroz fundaram, em 1949, o primeiro fã-clube do Brasil. A sede do Sinatra-Farney ficava em um porão, na Rua Dr. Moura Brito. Para ser membro era preciso passar por um teste. Todos no fã-clube tinham que ter um talento artístico, como seus ídolos. Alguns cantavam, outros dançavam e uma boa parte se esforçava para tocar algum instrumento.

Nessa época, o grande sucesso de Sinatra era "Night and day". E o brasileiro Dick Farney fora revelado pela canção "Copacabana". De Sinatra, os fãs tijucanos recebiam cartas e fotos autografadas. O que já era uma grande conquista. Farney, por sua vez,  teve participação ativa no clube. O dono da "voz de almofada" fez amizade com a turma que frequentava o porão, e até lhes apresentou outros artistas. 

Mas os jovens do Sinatra-Farney não se destacam no cenário musical apenas por terem fundado o primeiro fã-clube do país. Alguns dos membros foram também nomes importantes no início da Bossa Nova. Para se ter uma ideia, faziam parte do clube: Johnny Alf, João Donato, Paulo Moura, Raul Mascarenhas, Fafá Lemos, Klécius Caldas, Armando Cavalcante, Nora Ney, Mirzo Barroso e Carlos Manga.

O Sinatra-Farney durou até 1953. Nessa época, Sinatra já tinha se casado com Ava Gardner e já tinha entrado no seu famoso inferno astral. Dick também se casou e passou a ter menos tempo para se dedicar ao clube. Nessa época os garotos também já estavam crescendo, e o clube foi perdendo o gás. Mas até hoje, são muitos os que admiram Frank Sinatra e Dick Farney.

Assista abaixo ao vídeo de Dick Farney interpretando "Copacabana":







Veja também
Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim
In The Wee Small Hours (Frank Sinatra)

Pesquisa: livro "Chega de Saudade - A história e as histórias da Bossa Nova" de Ruy Castro

16 fevereiro, 2011

Trilha Antiga - New York, New York (Frank Sinatra)


Quando o preto e branco ainda não era charmoso e nem Cult. No tempo em que a fumaça do cigarro era sinal de elegância. Naquela época, o maior prédio da cidade era o Empire States. A canção New York, New York representa mais que a cidade famosa dos Estados Unidos. A música é o retrato do período mais glorioso daquele país.

New York, New York é a música tema do filme "New York, New York" do ano de 1977, dirigido por Martin Scorsese. A canção foi composta por John Kander e Fred Ebb para a atriz Liza Minnelli e imortalizada na voz de Frank Sinatra. Mas quem se lembra do filme?

A verdade é que o filme foi um fracasso e a canção ficou esquecida pelo público. Até que Frank Sinatra a cantou pela primeira vez em um show. O espetáculo aconteceu no Radio City Music Hall, em outubro de 1978. Rapidamente o single atingiu a trigésima posição dos mais vendidos nos Estados Unidos.

O jazz de Frank Sinatra, cantado num microfone decorado com motivos dourados, era o que melhor representava os Estados Unidos nos anos 60 e 70. Os filmes que chegavam ao Brasil, invariavelmente, contavam com o cantor de descendência italiana na trilha sonora. Assim nosso imaginário liga imediatamente a cidade de Nova Iorque a Sinatra. É por isso que New York, New York é a música do auge de uma cidade.


Veja também:

18 março, 2010

Trilha Antiga – In The Wee Small Hours (Frank Sinatra)


Selo – Capitol
Produção – Voyle Gilmore
Projeto Gráfico – Tommy Steele
Nacionalidade – EUA
Duração – 50:25

(1.In The Wee Small Hours of the Morning/ 2. Mood Indigo/ 3. Glad to Be Unhappy/ 4. I Get Along Without You Very Well/ 5. Deep In a Dream/ 6. I See Your Face Before Me/ 7. Can’t We Be Friends?/ 8. When Your love Has Gone/ 9. What is This Thing Called Love/ 10. Last Night When We Were Young/ 11. I’ll Be Around/ 12. I’ll wind/ 13. It Never Entered My Mind/ 14. Dancing On the Celing/ 15. I’ll Never Be the Same/ 16. This Love of Mine)

Quem nunca teve uma desilusão amorosa deve ter menos de seis anos de idade, ou é um sortudo desgraçado. Assim como todos os meros mortais, Frank Sinatra também passou por momentos difíceis. Mesmo com seus encantadores blue-eyes e charme inconfundível, Frank já sofreu por amor, e já gravou um disco de bêbado-num-bar-às-duas-horas-da-manhã, ou melhor In the Wee Small Hours (of the morning).

Em 1955, Sinatra estava em uma fase ruim profissionalmente e para completar, tinha se separado da atriz Ava Gardner. Mas Nelson Riddle manteve a confiança no talento do cantor e decidiu fazer os arranjos desse disco que se tornaria um clássico. In The Wee Small Hours é considerado como um dos primeiros (se não o primeiro) álbuns conceituais dos anos 50, e fala sobre separação.

Frank Sinatra e Ava Gardner

A capa do disco já apresenta o tema. Um Sinatra de olhar nostálgico, fumando um cigarro em uma rua deserta em meio a uma madrugada azul, mostra que o Mood Indigo (uma das melhores músicas) impera no álbum. As letras depressivas e os arranjos lentos dão o tom da madrugada. A abertura do disco, In the Wee Small Hours of the Morning foi composta especialmente para o álbum. Outras músicas que se destacam são Mood Indigo, What is This Thing Called Love, I’ll Be Around, Can’t We be Friends? de Cole Porter e Dancing On the Celling.

Em nenhum outro álbum se pode ver um Sinatra tão melancólico e ao mesmo tempo tão genial. O LP que ele lançaria no ano seguinte seria também um clássico, mas com a abordagem oposta de In The Wee Small Hours. Songs For Swingin’ Lovers!, de 1956, parece mais um passeio em uma tarde ensolarada de primavera, do que a caminhada solitária por uma noite gelada de seu antecessor. Mas esse álbum a gente deixa para uma outra Trilha Antiga, afinal, clássicos não faltam para Frank Sinatra.

Pesquisa: Wikipedia, Sinatra.com, livro: ‘1001 discos para ouvir antes de morrer’.

22 novembro, 2009

Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim

Por Mariana Coutinho

Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim (1967)
1967
Reprise Records/Philips

‘The Voice’ & The Conductor

Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim foi a primeira parceria da dupla. Em 1971 Frank lançaria o disco Sinatra & Company, cujo primeiro lado conta com músicas de bossa nova que haviam sido cortadas do álbum de 1967, e uma segunda parte com influência de soft-rock. E em 1979 foi lançado apenas no Brasil um LP duplo chamado Sinatra & Jobim Sessions, com ambas as parcerias de Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim e Sinatra & Company.

Ainda em 1967, Frank e Tom gravaram um programa de TV com Ella Fitzgerald, chamado A Man and His Music + Ella + Jobim acompanhados pelas orquestras de Nelson Riddle e Gordon Jenkins. Abaixo você pode ver uma parte do programa:




O Disco

O disco reuniu versões em inglês de músicas de Tom; com arranjos de bossa nova para músicas do Great American Songbook.

1) The Girl From Ipanema (Garota de Ipanema) – Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

A batida gostosa da bossa e os vocais intercalados de Frank e Tom preservam a carioquês da música brasileira mais executada em todo o mundo. É sem dúvida uma das melhores versões de Garota de Ipanema e foi muito bem escolhida para abrir o disco.

2) Dindi – Tom Jobim, Aloysio de Oliveira.

A batida fraca do violão marca levemente a meia-capela de Frank, a música é fluida e, como é característica da bossa, parece cantada ao pé do ouvido.

3) Change Partners – Irving Berlin

‘Change Partners’ foi escrita para o filme Carefree, de 1935, onde foi introduzida por Fred Astaire. O flerte de Fred e Ginger Rogers, quando ouvido pela primeira vez na voz de Sinatra parece já ter nascido no ritmo carioca.

4) Quiet Nights of Quiet Stars (Corcovado) – Tom Jobim

Apesar da versão em inglês mudar um pouco o sentido da letra, não se pode negar que é uma belíssima interpretação. O arranjo é maravilhoso. E mesmo perdendo as referências ao Corcovado e ao Redentor, a música ainda preserva o clima natural, de tranquilidade e paixão que o Rio de Janeiro traz. É uma das melhores músicas do disco.

5) Meditations (Meditação) – Newton Mendonça e Tom Jobim

Mais um dos clássicos da bossa nova que parece feito para a voz de Sinatra.

6) If you never come to me (Inútil Paisagem) – Tom Jobim e Aloysio de Oliveira

É visível o cuidado que se teve com a letra dessa versão em inglês de ‘Inútil Paisagem’. Apesar das construções e analogias obviamente serem diferentes da versão original, permanece o mesmo sentido da letra escrita em português. O leve piano dá um toque charmoso à música.

7) How Insensitive (Insensatez) – Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Uma das mais belas músicas desse álbum e de toda a bossa nova. A versão original (em português) culpa o coração do poeta pelo término de um relacionamento. A versão do disco de 1967 lamenta a frieza com que o poeta tratou sua amada. As duas letras falam de culpa, perdão, orgulho e amor.

8) I Concentrate on You – Cole Porter

Essa música foi escrita por Cole Porter para o musical ‘Broadway Melody of 1940’ e introduzida por Douglas McPhail. Ella Fitzgerald também gravou uma versão muito conhecida dessa música. Assim como ‘Change Parterns’, para quem escuta ‘I Concentrate on You’ pela primeira neste álbum de Sinatra e Jobim, é difícil imaginar que a música não tenha sido composta em ritmo de bossa nova. A letra romântica e esperançosa, no entanto um pouco melancólica, ganha outra vida com o arranjo, a interpretação de Frank e as pequenas intervenções vocais de Tom.

9) Baubles, Bangles and Beads – Robert Wright e George Forrest

Essa música foi escrita para o musical Kismet. Uma das melhores escolhas para este disco. A letra alegre, cheia de jogos de palavras, coube perfeitamente no arranjo de Claus Ogerman. Com um tom tranquilo, mas extremamente brincalhão, ‘Baubles, Bangles and Beads’ dá vontade de dançar

10) Once I loved (O amor em paz) – Tom Jobim e Vinicius de Moraes

A introdução lembra os antigos musicais, mas uma batida marcante antecede a entrada de Sinatra. Como ‘Garota de Ipanema’ era a música perfeita para abrir esse álbum, ‘O amor em paz’ tem a medida certa para fechá-lo.

Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim é a introdução perfeita a todos os conceitos da bossa nova. Para quem escuta o álbum de olhos fechados não é difícil imaginar a praia de Copacabana apinhada de banhistas em um dia de sol digno do verão carioca. Ou uma linda garota exibindo seu bronzeado pelo calçadão de Ipanema. Pode ser que ouvindo essas músicas você imagine um entardecer fresco, uma rede, e sinta os tons alaranjados do dia se transformarem num sereno azul, em noites silenciosas e calmas estrelas. Ou talvez o ouvinte consiga ultrapassar todas as imagens e sinta a brisa fresca tocar seu rosto e o cheiro de maresia. Seu coração cantará ‘sing singa-linga’, terá vontade de dançar ao som de ‘bangles and beads’, lamentará toda a insensatez de seu próprio coração, e mostrará que os sábios podem estar errados, concentrando-se no amor, que afinal de contas, é a coisa mais triste quando se desfaz. O que não se pode é deixar de sentir a bossa nova, que pede emoção, naturalidade e imaginação.

Pesquisa bibliográfica: CliqueMusic UOL, Sinatra.Com, Wikipedia